Mari Ferrer: Não há vacina que cure a epidemia da injustiça brasileira
quinta-feira, setembro 10, 2020 Eu
preferiria mil vezes que este texto fosse uma carta de amor ou até mesmo de
amizade, mas não, a injustiça brasileira só permitiu que fosse uma carta de uma
vitima de estupro para outra vitima.
Ah,
Mari, eu sei muito bem o que é ser dopada e depois perder a virgindade
num estupro. Mas eu não sei, por exemplo, o que é ter "amigas" que
ajudaram a me dopar e a me levar para o local do crime. |Eu não sei o que é
enfrentar um exame de corpo delito e nem responder mil perguntas do delegado.
Eu não sei o que é enfrentar julgamentos na vara criminal, não sei também o que
é expor o estupro e toda a dor que vem com ele para mundo. Não sei o que é ter
provas alteradas e nem tenho corpo padrão para ser influencer, sou apenas uma
jornalista que se arrisca na literatura ou o contrário. Você resolveu dar o
grito depois de alguns meses do crime, o meu grito só ecoou após dez anos do
acontecido.
Quando
eu conheci a sua história, eu tive vários gatilhos, mas me vi na obrigação de
tentar te ajudar de alguma forma. Procurei-te dizendo que queria entrevistá-la
e contei que seria publicada por uma jornalista já famosa, a então Daniela
Arbex, você me disse que estava esgotada mentalmente e que não conseguiria, mas
que tinha todas as informações no seu instagram. Confesso que li e reli várias
vezes, e cheguei à conclusão de que não poderia te ajudar dessa forma porque os
meus gatilhos estavam fortes demais. Senti-me fraca, mas tudo que você pedia no
Twitter ou instagram eu fazia. Lembro-me que em uma conversa com uma amiga da
área de humanas, eu disse a ela que achava difícil um monstro branco e
rico ser julgado, mas que pelas provas cogitava que ele pegaria uma pena mínima.
Ai ontem à tarde veio à notícia de que André Aranha de Camargo tinha sido
absolvido por falta de provas. O quê esse juiz tem na cabeça, além do machismo
nosso de cada dia? O sêmen encontrado na sua calcinha era do Aranha, houve
rompimento do hímen, houve sangue e roupas rasgadas, houve vídeos, conversas e
fotos. O que seria prova para esse juiz? Ah, me lembrei, estamos falando da
elite brasileira e pressuponho que elite ajuda a elite. Coitada da classe média
alta que pensa fazer parte da elite, mas isso é assunto para outro texto ou
outra carta.
Posso te
chamar de Mari? Deixa eu te contar algumas coisas, Mari. Sabe essa sensação de
que está suja que está sempre presente? Um dia ela irá passar. Sabe essa culpa
que não é sua que você sente? Também irá passar. Sabe os sonhos que você acha
que não terá mais? Eles irão voltar. Você sempre terá gatilhos e flashs de
memória do crime, mas com o tempo ficarão mais leves. E se eu puder lhe dar um
conselho: faça psicoterapia, ela ajuda a encontrarmos um norte quando tudo está
escuro igual ontem, hoje, amanhã... Enfim: viva, mesmo quando a vontade for de
morrer. As mulheres do Brasil estão todas com você. Fique firme, no seu tempo. Admiro-te!

2 comentários
Nossa, Ariana! Sinto muito por você também. Estou sem palavras...
ResponderExcluirLINDO E FORTE ARI .
ResponderExcluirABRAÇO
Sua opinião/critica é muito importante pra mim.