A ligação entre caminhar e amar
segunda-feira, junho 24, 2013
O interfone tocou. E lá estava ela.
Toda de preto, tentando transparecer um pouco de
tranquilidade. Disse "oi", deu um beijo no rosto dele e antes que ele
a convidasse, já foi entrando. Sentou em uma cadeira um tanto quanto tímida com
a bolsa no colo. Encarou a TV e sem pensar muito, puxou algum assunto sobre a
novela, os protestos, ou qualquer coisa que amenizasse aquele silêncio
constrangedor. Mas nem conseguia ouvir as respostas dele com muita atenção, já
que só conseguia pensar naquela frase do José Saramago "não tenhamos
pressa, mas não percamos tempo" enquanto se derretia fitando a boca dele.
A ansiedade só diminuiu assim que ele passou a mão no rosto
dela, puxando levemente seu cabelo para trás da orelha, seguido de um longo
beijo. As coisas esquentaram ali no sofá mesmo e fluiu deliciosamente até o
quarto. Cairam exaustos e suados na cama, e em um gesto automático ela se
aconchegou no peito dele, enquanto ele fazia cachinhos imaginários nos cabelos
dela, ambos pegaram no sono.
O tempo parou um pouco.
Mas o toque do celular a trouxe de volta a realidade.
Marcela se vestiu, se ajeitou rapidamente no espelho do
banheiro e se despediu calorosamente dele, que ainda se espreguiçava na cama.
Se olhando no espelho do elevador, começou a retocar o
batom. Sem se importar com a câmera do prédio que a filmava, começou a rir
sozinha.
Lembrando que semanas antes, ela estava lá trancafiada em
casa pensado que o mundo tinha acabado junto com o seu namoro de dois anos.
O ato da noite era mais que uma busca por prazer ou uma nova
aventura. Fora um ato de libertação para Marcela.
Achou engraçado ter pensado que não existiam mais homens no
mundo quando aquele que ela chamava de "amor" disse que não a queria mais.
Chegou a pensar, no auge da depressão do término, que nenhum
cara seria melhor que ele, que ninguém iria faze-la rir feito ele ou que nenhum
homem faria carinho nos seus cabelos enquanto ela adormecia no seu peito.
Teve que conter o riso quando a porta do elevador abriu.
O coração parou de sofrer e se lamentar. Ele finalmente
tinha entendido o recado de que a vida deveria seguir em frente.
Então, ela e o coração seguiram. Entrou no carro, ligou o
som e seguiu para uma festa com os amigos.
Lá, ela estava radiante. Distribuiu olhares e sorrisos na
mesma intensidade que os recebeu.
Naquela noite, as descobertas foram além do sexo casual.
Marcela descobriu a liberdade de escolher entre o sim e o
não, sem peso na consciência, sem se preocupar com o que as pessoas iriam
pensar ou falar sobre a sua conduta. Descobriu que a vida inteira procurou o
amor que ela idealizou, e que a fez procurar cegamente em lugares errados,
culpando “caras errados” por não corresponderem aquilo tudo que ela sonhou.
Esse tempo inteiro sem entender e perceber que o amor vem de dentro e que
aquele blábláblá de amor próprio é verdade.
Se amar é uma experiência incrível. Descobrir o quanto você
pode ser completa mesmo estando sozinha é sensacional.
Sem morrer de ansiedade quando o dia seguinte chega e seu
telefone não toca. Se arrumar pra si e não pra quem nem vai notar se você
passou batom nude ou vermelho. Se você está de moletom ou de social, contanto
que você se sinta bem é um alivio. Além de se descobrir maravilhosa, conseguir
se desligar dos padrões que a sociedade impõe foi de fato a melhor coisa que
podia acontecer.
A fez mais leve, livre e solta. Como naqueles comerciais
onde a mulher nunca tem TPM e vive sorridente.
Marcela errou incansavelmente querendo preencher o buraco no
peito que a assombrava todas as noites, sozinha ou acompanhada, o coração vazio
e inquieto estava sempre ali. E de galho em galho, boca em boca, passo por
passo, no tempo certo, o vazio foi dando espaço a esse amor que a livrava da
responsabilidade de encontrar a outra metade da laranja.
Finalmente, a paz se instalou no seu peito. Pouco importava
como o dia acabava, dessa descoberta em diante, todos os dias Marcela seguia ao
pé da letra o conselho mais antigo do mundo: Seguia em frente, independente,
sempre em frente. Sem pressa, sem medo ou pudor de ser quem ela quisesse ser.
E Marcela foi sempre feliz enquanto sozinha aproveitou
muito, conheceu muitas pessoas , se divertiu. E agora ela acha que encontrou um
outro amor além do próprio e esta aproveitando o momento sem criar mil
fantasias e expectativas.
Sempre em frente, sempre!

20 comentários
Obrigada pela visita no meu blog flor.
ResponderExcluirAmei esse texto. Gosto de textos onde a gente supera algo.
ResponderExcluirSuperar é a coisa mais gostosa da vida. bj
Quando a pessoa começa a se amar de verdade, o único caminho que ela tem é seguir sempre em frente. Sem retrocesso. Lindo texto, Ari. Beijos.
ResponderExcluirAdorei demais o texto, sempre devemos seguir em frente né.
ResponderExcluirBeijinhos
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Boa sorte a sua Marcela e a todas as outras Marcelas que precisam amar mais, sobretudo a si mesmas.
ResponderExcluirAmo teus textos, isso não é mais segredo :)
Um texto apaixonante.
ResponderExcluirVamos la com dedicação a vida,,,
nada de esmorecer
Beijos
Antes mais nada: essa música marcou muito a minha história. Tanto que estranhei ouvi-la numa voz que não a de costume.
ResponderExcluirSobre o texto:
Amor próprio não é difícil de aprender, mas tão difícil de reaprender quando num interím te ensinam que você será amada e cuidada. Vivi isso recentemente. Mas, o meu jeito de me curar é outro. Me fecho um pouquinho, aos poucos coloco um band-aid aqui e outro ali... Vou consertando tudo com calma e paciência, do meu jeito. Queria ser um pouco Marcela, mas não consigo...
Um beijo
Pequena
De vez em quando é bom ser um pouco "Marcela".
ResponderExcluirBeijos
www.procurei-em-sonhos.com
Vi um pouco de Amanda na Marcela, rs. Exceto pelo final. Acho que ainda estou na fase de curtir o meu amor próprio, que por sinal, é uma delícia.
ResponderExcluirBeijinhos
Hipérboles
@hiperbolismos
Ei, eu amei o texto.De verdade verdadeiiiiira.Nós sempre pensamos que é só um blábláblá dos livros,né?Mas eu acho que..quando crescemos e vimos que podemos fazer MUITA coisa sozinhas, a coisa muda.E tudo fica mais fácil e seguro para nós mesmos <3
ResponderExcluirAcompanhando aqui,de novo.Lembra de mim né?Carol Hermanas...aquela que sempre começa um blog e desiste no meio.HAHAHAHAHAH.
Beeijos :)
http://borboletametamorfoseando.blogspot.com.br/
Foi bom ler seu texto nessa madrugada, é realmente complicado quando terminamos com alguém que amamos, sempre achamos que nunca vamos encontrar alguém igual, as vezes a vida surpreende a gente e apresenta até alguém melhor.
ResponderExcluirbjs
Parece difícil até que se entenda realmente o significado de seguir em frente e que se enxergue o quanto isso é importante. As frases clichês, de tanto serem ditas naqueles momentos em que nada parece ser suficiente para amenizar a dor, acabam criando na gente um preconceito cego. Mas no final das contas, parece que as frases clichês realmente precisam ser tomadas além, e ''seguir em frente'' é, sem dúvidas, uma delas.
ResponderExcluirFoi per-fei-to o conto, Ari. Maravilhoso, toda mulher deveria ler.
Um beijo, minha flor!
E não tenho palavras pra agradecer o comentário lindo no post ''Extremos''. Fico feliz demais quando vejo as pessoas se identificando. Ah, e não entendi bem no comentário se gostaria de me contar sobre a identificação com o texto, mas caso tenha sido isso, pode ficar super à vontade para conversar em inbox, tá? Sou toda ouvidos. *-*
É preciso superar certos caminhos e momentos e olhar mais pra si. Foi o que Marcela fez ao buscar se amar. Ela floresceu em vida. E a vida despertou bela para ela. Seguindo em frente com total prazer.
ResponderExcluirLindo conto Ari. Emocionante. :)
Beijo!!!
ps: tem conto novo no blog.
Cara, estou vivendo esse "Sempre em frente" e também estou mega, mega feliz mesmo!
ResponderExcluirarrasou no texto
A superação, e a felicidade de ter a certeza que existe ainda um mundo bem aqui na nossa frente, prontinho pra nós!
ResponderExcluirQue delícia de texto.
Daí você no meio da semana, se depara um texto excelente desse e pensa...Poxa! Quanto talento inspirador ainda existe para manter a literatura viva!
ResponderExcluirParabéns!
bjs flor
Lindo, Ari. Como tudo o que você escreve. Sempre em frente, esse é o lema.
ResponderExcluirLindo texto! Acho que eu precisava mesmo ler um conto como esse... Parabéns pelo blog e obrigada pelo comentário no meu, volte sempre =)
ResponderExcluirTenha uma ótima semana, flor
Beijos!
Um texto e tanto para refletir. Acho que ele veio no momento certo para mim e tenho que agradecer você por escrevê-lo. Não é o fim do mundo estar sozinha, não é mesmo? Claro que tem aquele momento que nós queremos alguém por perto, mas não vai morrer se não tiver também. ADOREI!
ResponderExcluirBeijos,
Monique Premazzi.
http://www.secretsofalittlegirl.com/
Livre, leve e solta, dá pra ser melhor que isso? não há nada melhor que a descoberta de que a gente já nasce completo, que essa história de metade da laranja e conto pra boi dormir e que a gente nasceu mesmo é pra ser feliz, triste, cada coisa a seu tempo, por que a vida é assim mesmo.
ResponderExcluirBeijos, Ariana.
www.semprovas.blogspot.com <- tem continuação
www.eraoutravezamor.blogspot.com
Sua opinião/critica é muito importante pra mim.