O interfone tocou. E lá estava ela.
Toda de preto, tentando transparecer um pouco de
tranquilidade. Disse "oi", deu um beijo no rosto dele e antes que ele
a convidasse, já foi entrando. Sentou em uma cadeira um tanto quanto tímida com
a bolsa no colo. Encarou a TV e sem pensar muito, puxou algum assunto sobre a
novela, os protestos, ou qualquer coisa que amenizasse aquele silêncio
constrangedor. Mas nem conseguia ouvir as respostas dele com muita atenção, já
que só conseguia pensar naquela frase do José Saramago "não tenhamos
pressa, mas não percamos tempo" enquanto se derretia fitando a boca dele.
A ansiedade só diminuiu assim que ele passou a mão no rosto
dela, puxando levemente seu cabelo para trás da orelha, seguido de um longo
beijo. As coisas esquentaram ali no sofá mesmo e fluiu deliciosamente até o
quarto. Cairam exaustos e suados na cama, e em um gesto automático ela se
aconchegou no peito dele, enquanto ele fazia cachinhos imaginários nos cabelos
dela, ambos pegaram no sono.
O tempo parou um pouco.
Mas o toque do celular a trouxe de volta a realidade.
Marcela se vestiu, se ajeitou rapidamente no espelho do
banheiro e se despediu calorosamente dele, que ainda se espreguiçava na cama.
Se olhando no espelho do elevador, começou a retocar o
batom. Sem se importar com a câmera do prédio que a filmava, começou a rir
sozinha.
Lembrando que semanas antes, ela estava lá trancafiada em
casa pensado que o mundo tinha acabado junto com o seu namoro de dois anos.
O ato da noite era mais que uma busca por prazer ou uma nova
aventura. Fora um ato de libertação para Marcela.
Achou engraçado ter pensado que não existiam mais homens no
mundo quando aquele que ela chamava de "amor" disse que não a queria mais.
Chegou a pensar, no auge da depressão do término, que nenhum
cara seria melhor que ele, que ninguém iria faze-la rir feito ele ou que nenhum
homem faria carinho nos seus cabelos enquanto ela adormecia no seu peito.
Teve que conter o riso quando a porta do elevador abriu.
O coração parou de sofrer e se lamentar. Ele finalmente
tinha entendido o recado de que a vida deveria seguir em frente.
Então, ela e o coração seguiram. Entrou no carro, ligou o
som e seguiu para uma festa com os amigos.
Lá, ela estava radiante. Distribuiu olhares e sorrisos na
mesma intensidade que os recebeu.
Naquela noite, as descobertas foram além do sexo casual.
Marcela descobriu a liberdade de escolher entre o sim e o
não, sem peso na consciência, sem se preocupar com o que as pessoas iriam
pensar ou falar sobre a sua conduta. Descobriu que a vida inteira procurou o
amor que ela idealizou, e que a fez procurar cegamente em lugares errados,
culpando “caras errados” por não corresponderem aquilo tudo que ela sonhou.
Esse tempo inteiro sem entender e perceber que o amor vem de dentro e que
aquele blábláblá de amor próprio é verdade.
Se amar é uma experiência incrível. Descobrir o quanto você
pode ser completa mesmo estando sozinha é sensacional.
Sem morrer de ansiedade quando o dia seguinte chega e seu
telefone não toca. Se arrumar pra si e não pra quem nem vai notar se você
passou batom nude ou vermelho. Se você está de moletom ou de social, contanto
que você se sinta bem é um alivio. Além de se descobrir maravilhosa, conseguir
se desligar dos padrões que a sociedade impõe foi de fato a melhor coisa que
podia acontecer.
A fez mais leve, livre e solta. Como naqueles comerciais
onde a mulher nunca tem TPM e vive sorridente.
Marcela errou incansavelmente querendo preencher o buraco no
peito que a assombrava todas as noites, sozinha ou acompanhada, o coração vazio
e inquieto estava sempre ali. E de galho em galho, boca em boca, passo por
passo, no tempo certo, o vazio foi dando espaço a esse amor que a livrava da
responsabilidade de encontrar a outra metade da laranja.
Finalmente, a paz se instalou no seu peito. Pouco importava
como o dia acabava, dessa descoberta em diante, todos os dias Marcela seguia ao
pé da letra o conselho mais antigo do mundo: Seguia em frente, independente,
sempre em frente. Sem pressa, sem medo ou pudor de ser quem ela quisesse ser.
E Marcela foi sempre feliz enquanto sozinha aproveitou
muito, conheceu muitas pessoas , se divertiu. E agora ela acha que encontrou um
outro amor além do próprio e esta aproveitando o momento sem criar mil
fantasias e expectativas.
Sempre em frente, sempre!
- segunda-feira, junho 24, 2013
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